segunda-feira, 12 de março de 2018

Em Busca do Tempo Perdido


Quando Marcel Proust escreveu “Em busca do tempo perdido”, publicada entre 1913 e 1927, ele descreveu em seu romance todo o processo de descortinamento da memória e como a vida se torna uma jornada em busca do Si Mesmo. São 3500 páginas que contam a ambição do autor de alcançar a substância do tempo para poder se subtrair de sua lei, a fim de tentar apreender, pela escrita, a essência de uma realidade escondida no inconsciente “recriada pelo nosso pensamento”.

Falando sobre a guerra, os pesadelos de sua juventude, a morte do avô, entre outras memórias, ele faz uma volta a seu passado, lembrando de imagens, fatos, sons, aromas, paisagens e sensações tácteis. Essa volta ao passado é o fio condutor da jornada do herói por sua vida em busca de tudo aquilo que se perdeu e na compreensão de tudo o que ficou, abrindo o seu inconsciente para que essas lembranças perdidas se manifestem.

E qual o sentido disso?

Quando ouvimos dizer que a libertação da alma se dará na medida em que o ser humano se liberte das amarras da roda do destino, outra coisa não é do que essa libertação da lei do tempo : nascemos, crescemos de acordo com aquilo que nos tornamos através das influências do ambiente infantil, nos tornamos adultos despreparados para o mundo e envelhecemos buscando o tempo perdido.
Quando retornamos ao passado e verificamos o que fomos e comparamos ao que somos, sentimos que algo se perdeu pelo caminho. Algo esta errado, não foi bem isso que planejamos ou sonhamos. Ou mesmo que tenhamos atingido um certo grau de sucesso em nossa vida, sentimos em algum momento que não nos ajustamos mais ao presente.

É a advogada que percebe que seu sonho de se tornar veterinária quando criança está cada vez mais presente em seus momentos de desilusão, causando dor e tristeza; é o diretor comercial que se aposentou e agora não sabe mais o que fazer de sua vida e lembra cada vez com mais força das brincadeiras de criança e de como era feliz e se pergunta o que fará agora; é a mãe cujos filhos casaram e não precisam mais tanto dela e que agora passa seus dias em busca de algo para fazer e se sente deprimida e angustiada.

Todas essas pessoas têm em comum o fato de que não se ajustam mais a vida que levam, estão em um ponto de ruptura, porém não sabem como direcionar suas energias para buscarem um novo paradigma para suas vidas.

A jornada do Mito Pessoal nada mais é do que essa busca por um novo sentido para a vida. Essa jornada se pauta pela desconstrução do mito pelo qual o individuo vive, que é a somatória de todas as influências boas e ruins que estão encravadas em seu inconsciente, comparando com suas novas expectativas de vida e buscando um compromisso que seja o que de melhor pode trazer de seu passado com o que de melhor pode querer para seu futuro.

Dessa forma deixamos de ser indivíduos limitados por pensamentos e sentimentos que não são nossos e nos tornamos realmente livres para vivermos a vida que queremos, porém dentro das circunstâncias em que existimos.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ayvu rapyta (A Fonte da Fala)


O surgimento do Humano

 

Ele ergueu-se: de seu saber divino das coisas,
saber que desdobra as coisas,
o fundamento da Palavra,
ele o sabe par si mesmo.
De seu saber divino das coisas, o fundamento da Palavra,
ele o desdobra desdobrando-se,
ele faz disso sua própria divindade, nosso pai.
A terra ainda não existe, reina a noite originaria,
não há saber das coisas:
o fundamento da Palavra futura,
ele o desdobra então,
ele faz disso sua própria divindade,
Namandu, pai verdadeiro primeiro.

Este texto, de suma importância para compreendermos o pensamento guarani, é ao mesmo tempo o discurso de sua origem e a declaração de seu destino enquanto povo. Se o texto anterior descreve o aparecimento do deus primevo, este segundo texto enumera os trabalhos de Ñamandu, os diferentes elementos de sua matriz, raiz e modelo de toda imagem futura de sua criação. Depois da teogênese, a antropogênese. Não vendo os humanos como coisas do mundo mas como parte do divino Ñamandu mostra os guarani como eleitos dos deuses, e é a Palavra que lhes garantirá ao mesmo tempo, no interior da existência doente que será a deles na morada terrena, a certeza de voltar a ser um dia o que são antecipadamente: divinos. Uma lógica rigorosa impõe ao movimento do texto o lugar exato de cada uma das sequências que o compõem.
"O fundamento da linguagem humana, a fonte da fala, é a palavra alma originária (aquela que Nossos Primeiros Pais repartiram com seus numerosos filhos ao enviá-los à morada terrena para se erguerem)"[1].
A ideia de que existe uma Palavra Criadora perpassa várias culturas. A fala distingue o racional do irracional, o homem do animal, o consciente do inconsciente. Enquanto este ultimo é caótico e atemporal, dominando o pensamento primário e sendo dominado pelos impulsos, o consciente é ordenado e temporal. Por isso o sentimento do homem primitivo de que o que acontecia no seu dia a dia tinha a ver consigo e estava sob sua compreensão e poder. A Natureza caótica, com suas tempestades, trovões, animais selvagens, era uma ameaça constante que levava o homem primitivo a povoa-la com espíritos e medos irracionais. Apoderar-se das forças da natureza era algo considerado possível para o homem primitivo e permitia controla-la de alguma maneira.
Com a evolução do pensamento racional, o homem passa a se sentir a mercê da Natureza, inferiorizado, e portanto, só alguém maior que o próprio homem, mais poderoso e da mesma natureza do que era temido, ou seja "em espírito" e divino, poderia ter criado o próprio homem e tudo o que o cercava.
Essa percepção da pequenez do homem perante a Criação, é o que Freud chama da segunda fase do processo psicológico, passando da fase animista para a fase religiosa - "Na fase animista, os homens atribuem a onipotência a si mesmos. Na fase religiosa, transferem-na para os deuses, mas eles próprios não desistem dela totalmente, porque se reservam o poder de influenciar os deuses através de uma variedade de maneiras, de acordo com os seus desejos. A visão científica do universo já não dá lugar à onipotência humana; os homens reconheceram a sua pequenez e submeteram-se resignadamente à morte e às outras necessidades na natureza. Não obstante, um pouco da crença primitiva na onipotência ainda sobrevive na fé dos homens no poder da mente humana, que entra em luta com as leis da realidade"[2].
Vemos que nesse segundo texto, Ñamandu, o deus principal, surge em primeiro lugar na ordem genealógica do mundo, como é normal, e as outras figuras da divindade só aparecem em seguida. depois surgem os humanos, não como realidade, pois a terra ainda não existe, mas como possibilidade à qual só falta a realidade. São então sucessivamente estabelecidas a Palavra, como essência do humano; a sociedade dos eleitos, como lugar de desdobramento dessa Palavra; o canto sagrado, como presença da Palavra; enfim, os deuses e deusas, pais e mães verdadeiros do homem.
Ñamandu não quer ficar só em sua criação. Ele desdobra-se em um panteão: Karai, Jakaira, Tupã e seus pares femininos. Dessa maneira Ñamandu mantém o apoio dos firmamentos. É o aparecimento do arquétipo do Quaternário. Para Jung "a aplicação do método comparativo mostra-nos, sem a menor dúvida, que a quaternidade é uma representação mais ou menos direta de um Deus que se manifesta na sua criação"[3].  È a Trindade mais a Causa Primeira : Deus Pai, Filho e Espírito Santo dos cristãos; Kether, Chochmah e Binah dos cabalistas; Osíris, Ísis e Horus dos egípcios; Brahma, Krishna e Vishnu dos hindus.
Podemos entender o que representa a quaternidade para Jung analisando co conceito de espaço-tempo. Sabemos que o espaço é tridimensional, sendo as três dimensões altura, largura e profundidade. O tempo, portanto, seria tido como a quarta dimensão, o que confirma a existência e a natureza do espaço. De forma inversa, ao considerar os três aspectos fundamentais do tempo (passado, presente, futuro), tem-se o espaço estático como quarto elemento, necessário para que as mudanças de estado ocorram, e o tempo prove sua função. Esta quaternidade é uma representação da condição arquetípica para o relacionamento entre a psique e a realidade física,sendo um exemplo específico de um esquema ordenador. O quarto fator representa algo que é diverso aos outros três, sendo entretanto necessário para determiná-los, um em relação ao outro. Assim é que medimos o espaço por meio do tempo e o tempo por meio do espaço. O Quarto Elemento inconsciente torna a totalidade possível. O fato de que a integração do quarto elemento simboliza a individuação, para C. G. Jung, leva à conclusão de que a quaternidade consiste um símbolo legítimo do Si-Mesmo (Selbst)[4].
O mundo guarani e seus deuses se sustenta sobre as quatro palmeiras sagradas (Pindó), formando uma mandala, tendo ao centro a palmeira principal, ou o Si-Mesmo, o homem integrado. É a representação da Axis Mundi[5]. É este centro, chamado pelos guaranis de YWY MARÃ EY, a Terra sem Mal, que todo guarani almeja alcançar em vida (Kandire), pois o paraíso é algo a ser conquistado enquanto ser vivente, consciente de que necessita integrar seu aparelho psíquico através de sua vontade (aguyje) e de sua ação .
Podemos considerar, com Jung, que o Si-mesmo, ou Self, é uma imagem arquetípica do potencial mais pleno do homem, ou seja, da totalidade. Ele ocupa a posição central da psique como um todo e, portanto, do destino do indivíduo guarani, já que o homem-palavra tem o direito e o dever de alcançar dentro de si esse centro.



[1] Josely Vianna Paptista, Roça Barroca, Ed CosacNaify, pg 69, citando o cacique Pablo Verá.
[2] Freud - Totem e Tabu  (LPM Pocket 2013), pg 142
[3] Jung - Psicologia e Religião, pg 63
[4] "Embora o quatro seja um símbolo antiqüíssimo, provavelmente pré-histórico, sempre relacionado com a idéia de uma divindade criadora do mundo, é surpreendente observar como o homem moderno dificilmente o interpreta dessa maneira". Jung - Psicologia e Religião, pg 63
[5]axis mundi (em latim "centro do mundo", "pilar do mundo") é um símbolo ubíquo que atravessa as culturas humanas. A imagem representa um centro no qual a eternidade e a terra encontram-se entre os quatro cantos do mundo. Neste ponto correspondências são feitas entre os reinos superiores e inferiores.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Tabagismo e Psicanálise


Adultos geralmente concebem a infância como uma etapa assexuada da vida, o que não é bem assim. O que ocorre é uma vivência diferente da sexualidade.

É na infância que o indivíduo faz diversas descobertas como, por exemplo, que existe o masculino e o feminino. Fazer estas descobertas é estar vivenciando a sexualidade.
Ao nascer e cortar o cordão umbilical, a criança deixa de estar passivamente recebendo a vida (o alimento, o oxigênio) e é obrigada a unir todas as suas forças e fazer contato com o externo, inspirando o ar. O organismo tem que lutar para sobreviver. “A angústia de respirar é a perda do paraíso bíblico e o início da conquista do pão com o suor do rosto”. “Respirar é o marco da independência humana. Inspira-se o ar saudável, repleto de oxigênio e expira-se o ar viciado. Ao nascimento, a estrutura sensorial mais desenvolvida é a boca. É pela boca que se mobilizará na luta pelo equilíbrio homeostático. É pela boca que começará a provar e conhecer o mundo. É pela boca que fará sua primeira e mais importante descoberta afetiva: o seio. O seio é o primeiro objeto de ligação infantil. É o depositário dos primeiros amores e ódios. O seio já existe para a criança enquanto ela ainda não consegue reconhecer a mãe por inteiro. Isto se construirá gradativamente a partir do amor que o seio oferece. Erikison define que, neste momento, a criança ama com a boca e a mãe ama com o seio”.

Até por volta de um ano a criança reconhece o mundo pela boca. “Freud percebe que, além da necessidade física de alimentação, a criança sente um grande prazer no ato de mamar em si. Mesmo depois de satisfeita, ela continua a sugar a chupeta. Quando dorme, faz movimentos de sucção, aparentando grande prazer. Este vínculo inicial de prazer em si, independente da sobrevivência física, constituirá a base das futuras ligações afetivas. O que é o afeto senão um vínculo prazeroso que se estrutura independentemente das necessidades básicas de sobrevivência, embora com ela tenha correlações iniciais? É a capacidade de formar um vínculo de prazer em si que pode permitir a formação da afetividade.”

Por aí vemos como e de onde vem a força da oralidade. Assim entende-se melhor a dificuldade em parar de fumar e em fazer regimes alimentares. Além da dependência química do cigarro, há a emocional. A sensação de prazer que muitos sentem ao acender e levar um cigarro à boca remete à fase oral. Ao levar o alimento à boca, a pessoa sacia não só a fome física, mas também a afetiva. A dependência emocional que o cigarro e o alimento exercem no homem é forte e suas origens são a infância. Por isso é tão difícil vencer estas dependências, apesar de ser possível.

Os primeiros sete anos da criança definem o seu comportamento pelo resto de sua vida. Os adultos geralmente se referem à sua infância como algo longínquo, distante, mal sabendo que ela está sempre presente, independente da idade do indivíduo. As faltas sentidas pelo sujeito (de amor, compreensão, segurança, plenitude etc.), na hora em que o cigarro ou o alimento entra em cena, são, naquele momento, completadas. Mas logo em seguida surge a frustração, pois a pessoa percebe que este refúgio no cigarro ou na comida são apenas paliativo para o problema. Uma sensação de alívio das tensões e faltas apenas momentâneo, e que além de tudo ainda traz malefícios à saúde.

Das pessoas que têm este tipo de problema, cada uma desenvolverá o seu próprio processo de conscientização da necessidade de mudança. Mas quando se ama alguém que esteja passando por isso, nada impede que se ajude essa pessoa nesse processo, rumo à solução. Contando que haja respeito, o importante é estarem sempre ajudando uns aos outros.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Arquétipos e Neurotransmissores



Neurotransmissores são componentes químicos fabricados pelos neurônios para inibir ou estimular outras células nervosas. Acredita-se hoje que existam 100 bilhões de neurônios no ser humano. Estas substâncias provocam emoções, sentimentos e comportamentos. Podemos criar a emoção que quisermos em nós ou em outros, estimulando a criação dos neurotransmissores em nós ou em outros.

As possibilidades são infinitas quando se conhece a química das emoções. O potencial de produção de neurotransmissores é variável e por isso os estímulos são extremamente importantes. Como o cérebro produz os neurotransmissores à uma determinada velocidade, o tempo de exposição ao estímulo é de suma importância. Os estímulos, como por exemplo, imagens associativas ou neuroassociações, provocam a reação do circuito de recompensa do cérebro, fazendo com que a cada vez que seja estimulado, haja um reforço do circuito e assim por diante. A exposição repetida à um estímulo provoca uma alteração na arquitetura e química cerebral. Esse é o princípio do marketing.

Determinados Arquétipos induzem a produção de determinados neurotransmissores e eles induzem os sentimentos e comportamentos. Essa é a explicação de como os Arquétipos controlam nossos sentimentos e comportamentos. Na realidade a coisa é mais complexa que isso, mas para efeito de entendimento prático é suficiente. Essa é uma explicação bioquímica.

Os arquétipos provocam reações emocionais, sentimentais e comportamentais. É perfeitamente possível prever o comportamento de um grupo de pessoas em relação à um determinado arquétipo. Essa reação será o resultado da média das reações de todas as pessoas expostas a ele.

Os arquétipos podem ser experimentados na forma de símbolos, objetos, formas, sons, odores, comportamentos, gestos, escritas, traços riscados, personalidades, etc. Eles provocam uma resposta no mais profundo nível inconsciente, trazendo à tona sentimentos, emoções, comportamentos primordiais, arquivados profundamente na mente humana. As pessoas devem estar cientes deste fato e do profundo poder que reside no âmago dos arquétipos.

Por exemplo: mudando­-se o tipo de arquétipo que uma pessoa vê, pode­-se mudar profundamente a sua personalidade, sua visão de mundo, seus sentimentos e comportamentos, sua reação aos acontecimentos, sua força, seu poder pessoal, sua saúde, sua atração sexual, etc. Enfim, pode-­se estimular a pessoa para qualquer tipo de sentimento e emoção, tanto positiva quanto negativa. Acrescente­-se aí a possibilidade dela ser estimulada inconscientemente. Todas as possibilidades estão em aberto, para a saúde e para a doença, para o vício ou não, para a pobreza ou riqueza, e assim por diante.

Nunca será demais repetir que símbolos e arquétipos são extremamente poderosos na definição e indução de sentimentos e comportamentos.

Arquétipos negativos e/ou fracos São aqueles que inibem a produção dos neurotransmissores que dão poder e felicidade

Arquétipos positivos e/ou fortes: São aqueles que induzem a produção dos neurotransmissores que geram poder e felicidade. Produzem resultados positivos e fortes, como crescimento, riqueza, prosperidade, elevada auto­estima, sistema imunológico forte, alegria, criatividade, etc.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Maino i reiko ypikue (Os primitivos ritos do Colibri)

O aparecimento do Divino
Nosso Pai, o último, Nosso Pai, o primeiro,
fez com que seu próprio corpo surgisse
da noite originária.
As celestes plantas dos pés,
o breve arco do assento
no coração da noite originária
ele os desdobra, desdobrando-se.

"Tupã Tenondé apresenta-se como colibri, a grande expressão do sagrado para o povo Guarani, pois é uma das suas primeiras formas de manifestação – o que vê a totalidade a partir dos mundos sutis do espírito. Ainda hoje é sob essa forma ágil que se apresenta um mensageiro divino – aquele que vem da morada de Tupã – quando quer transmitir uma orientação espiritual importante, ou um sinal de proteção, de presença, de indício de caminho correto" (Kaka Werá Jecupé. Tupã Tenondé: A criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a tradição oral Guarani. São Paulo: Peirópolis, 2001, pg 35.).

Para Joseph CampbelI, a primeira função da mitologia é de reconciliar o homem com a vida: não a mera reconciliação entre a consciência e as precondições da sua própria existência, mas a reconciliação com a gratidão, o amor, o reconhecimento da delicadeza. Pela amargura e pela dor, a experiência primordial no âmago da vida é doce, maravilhosa. Portanto, primeira função de uma ordem mitológica tem sido reconciliar a consciência com o fato de que a vida é difícil, e que muitas vezes a sobrevivência depende da morte de algo que sirva como alimento. As primeiras ordens mitológicas, primitivas, são afirmativas, acolhem a vida como ela é.

Para os Guaranis, a vida era o que receberam do Deus primevo e de toda Sua criação. Nesse sentido seus textos sagrados representam a celebração da vida recebida de Ñamandu e de como o mundo foi criado para que o homem vicesse sua vida em toda sua plenitude.

O primeiro desses textos, “os primitivos ritos do Colibri” (“Maino i reko ypykue”), revela o momento da criação, quando tudo era o caos e só havia o pio da coruja sarapintada.O colibri, “em adejos sobre a fronte do deus, farta de flores, respinga água em sua boca e o alimenta com frutos do paraíso”.

Maino é o termo mbyá-guarani para designar o colibri, presença constante em várias mitologias ameríndias. Ele surge no meio do caos inicial para alimentar com seu nectar, que colhe através das flores com seu beijo, o novo deus que se desdobra.

A noite originária esta associada ao hemisfério sul, de onde partem os ventos originários. Os povos antigos de nosso hemisfério observavam que o movimento aparente do sol no horizonte o levava do ponto máximo norte (Equinócios) até o meio do céu (Solstícios). Quando chegava ao meio do céu, fazia o caminho de volta. Portanto, o sul nunca era iluminado com a presença solar, sendo associado ao caos e as sombras. No hemisfério norte é o contrário, sendo o norte associado as trevas. Por isso todo ritual de exorcismo é realizado voltado para o norte neste hemisfério.

É da parte mais obscura do ser, aquela que não pode ser conhecida ou penetrada, nunca iluminada pela luz da razão, o ID,  que o deus se revela, trazendo uma nova consciência de si mesmo, o desabrochar  do Ego. O homem passa a se tornar ereto, pois é isso o que o diferencia dos animais e o aproxima da divindade.

Toda espiritualidade guarani esta baseada no "vir-a-ser", direito divino que ele adquire por seu nhandereko, ou seu jeito de ser. Ele é o guardião do divino, ele é a imagem do divino, e como tal tem de viver até adquirir o Si-mesmo ou kandire, sendo que  é necessário haver anteriormente obtido o Aguyje - a perfeição, a completude. Ser aguyje significa ter aniquilado dentro de si a natureza má, o teko achy kue, ter-se livrado portanto de toda a imperfeição ligada ao sangue e à carne; em suma, é ter apenas uma palavra, a alma de essência divina que circula no esqueleto e o mantém ereto: então é possível o kandire, pode-se então empreender a viagem para o Oriente e atravessar — de pé — o mar

Dos ventos primitivos surge Ñamandu, e com este chega o novo tempo: tempo dos longos sóis, dos ventos mornos e quentes da primavera e do verão, tempos felizes que anunciam a volta do não-mortal, a volta do divino. Antes de Ñamandu existe o vento originário: vento gelado do sul, vento da dobra e não do desdobramento. Ñamandu, o divino, Ñamandu, o vivo, afasta o vento originário, que é o sopro da morte. O novo tempo, calor e luz do meio-dia imóvel, é o tempo da eternidade, onde só as coisas não-mortais encontram estada.

O novo homem, a nova consciência surgida desde os tempos que o homo sapiens saiu da África em direção aos outros continentes e a América, se manifesta em toda sua intensidade como algo novo. Já é um aparelho psíquico completo e bem definido, capaz de criar mitos que expressam sua complexidade, é um sol em si mesmo em meios as trevas do inconsciente.
No cimo da cabeça divina
as flores, as plumas que o coroam,
são gotas de orvalho.
Entre as flores, entre as plumas da coroa divina,
o pássaro originário, Maino, o colibri,

esvoaça, adeja.

sábado, 25 de novembro de 2017

TERAPIA DO MITO PESSOAL




Hoje quero falar um pouco sobre o trabalho terapêutico que pratico, e ele esta diretamente ligado a cada história pessoal. As histórias têm poder. Seja sob a forma de uma novela, romance, conto, filme, série de TV - ou mesmo um videogame - uma boa história tem a capacidade de nos transportar de nossa realidade cotidiana para outros mundos. Ao envolver nossa mente, imaginação e sentimentos, as histórias podem nos trazer emoção e admiração, fazendo-nos rir e chorar, sentir, sonhar, ter raiva, amar, esperar e pensar. Elas têm o poder de encorajar, motivar, educar e curar, e podem nos ajudar a entender e se relacionar melhor com os outros e com este mundo em que todos fazemos parte.
Sempre conheci o poder da narração de histórias. Eu sabia que queria viver em um mundo de aventuras desde que eu tinha 6 ou 7 anos de idade. Muitas vezes fui uma criança um pouco precoce e insociável. Enquanto todas as outras estavam na rua jogando, eu estava em meu quarto, com tudo que houvesse a mão (brinquedos, tampas de garrafa, feijões, lápis e papel, etc...), criando novos mundos e personagens e colocando-os em todo tipo de aventuras épicas. Na verdade, eu desenhei a minha primeira HQ quando ainda estava na escola primária! Eu nasci um narrador. Eu sempre soube que tinha histórias dentro de mim; histórias que eu queria poder contar e compartilhar com o mundo.
Quando cresci e comecei a vivenciar a realidade de estudos, trabalho e família, fui me afastando do mundo de aventuras, mas estava decidido a encontrar exatamente o porquê das histórias nos interessarem tanto. Por que os seres humanos têm essa compulsão inata para contar histórias e por que amamos ouvir, ler e vê-los?
Um aspecto da natureza humana
O que eu percebi foi que contar histórias desempenha um papel vital na cultura humana, e sempre desempenhou. Podemos até dizer que é parte de nossa própria natureza. De acordo com o cientista cognitivo Roger Schank: "Os seres humanos não estão idealmente configurados para entender a lógica; eles são ideais para entender histórias ".
Então, contar histórias é basicamente inato em nós. É uma maneira pela qual entendemos e processamos a realidade.
Histórias não são apenas para fins de entretenimento. Elas realmente têm o poder de mudar o mundo e nos mudar. A arte da narração de histórias tem sido uma parte fundamental da cultura humana, tanto quanto sabemos. Como Ursula Le Guin diz: "A história é uma das ferramentas básicas criadas pela mente humana com o objetivo de entender. Houve grandes sociedades que não usaram a roda, mas não houve sociedades que não contavam histórias ".
O mito e a mitologia são a forma mais antiga de contar histórias do mundo. Hoje, a palavra "mito" passou a significar algo falso ou falso; uma fabricação ou mentira. Mas a palavra decorre da palavra grega "mythos", que significa história ou conto. O mito é uma história ou um conjunto de histórias que possuem importantes significados simbólicos para uma cultura particular.
O objetivo do mito é nos ajudar a entender o universo e nosso lugar nele. Esses mitos podem basear-se em relatos factuais de eventos, descobertas e realizações, mas são mais frequentemente aprofundamentos metafóricos e cheios de significado simbólico. Em outras palavras, os mitos não são relatos literais da verdade, mas são histórias com muitos significados escondidos. Sua mitologia pessoal opera "nos bastidores" em sua psique. Ele molda todo o seu pensamento, percepção e ação, levando-os a se conformar a uma linha de história subjacente. A maioria das pessoas não pode articular essa mitologia interna que se desenrola, mas, no entanto, dirige o curso de suas vidas.Para compreendê-los, você tem que olhar sob a superfície e descascar as camadas de significado.
Joseph Campbell acreditava que, sem uma mitologia funcional para dar sentido a nós mesmos e a realidade, a sociedade degenera e quebra. Estamos indiscutivelmente vendo isso em todo o mundo hoje. Campbell advertiu que:
"Quando uma civilização perde sua mitologia, perde também a sua vida".
Podemos dizer também que, quando alguém perde seu mito pessoal, perde também sua vida, perde seu sentido enquanto ser humano. Nesse sentido, a busca do mito pessoal, passa por recontarmos a nossa história pessoal. Buscar no passado as chaves que explicam nosso conflito interior e que podem impulsionar nosso novo mito. Desse modo podemos criar um compromisso factível entre a realidade de nossas vidas e os anseios de nossos sonhos.
Sua mitologia pessoal opera "nos bastidores" em sua psique. Ele molda todo o seu pensamento, percepção e ação, levando-os a se conformar a uma linha de história subjacente. A maioria das pessoas não pode articular essa mitologia interna que se desenrola, mas, no entanto, dirige o curso de suas vidas.
Passei a praticar isso em minha vida pessoal e profissional.
O trabalho terapêutico que realizamos em nossa clínica para desenvolver o mito pessoal se traduz em uma vivência que permite a cada pessoa imergir em seu passado, buscar e entender seus conflitos e transformá-los em uma ferramenta de superação e integração. Cada paciente é levado a escrever sua própria história, refletir sobre cada ponto importante dela e criar um novo roteiro de sua vida a partir do agora. Tudo isso em uma terapia breve e por um custo muito acessivel..
Se quiser saber mais sobre essa terapia entre em contato através do telefone (11) - 99109-2728, ou através do email marcus.caldevilla@outlook.com.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Em busca do Mito Pessoal 4

A lenda do milho povo Tupi diz que em tempos difíceis, a seca afastava a caça que fugia em busca de água, o rio secava e não tinha peixe, na terra dura não brotava uma semente, a fome e a desolação tomava conta do povo, que clamava a Tupã dias melhores.

Vendo tristeza de seu povo, o chefe da tribo, jurou que ia trazer novamente a alegria a sua tribo.
Ele daria sua vida a Tupã pelo seu povo e a chuva cairia novamente e molharia as sementes que verdinhas nasceriam, os rios se encheriam corriam fortes e cheios de peixes, a caça voltaria e a aldeia festejaria novamente a fartura.

Mas para isso era preciso que ele desse sua vida por seu povo.

E assim morreu, deixando um desejo que depois de morto toda a tribo arrastasse seu corpo por até um lugar distante onde o verde cobrisse a terra o enterrassem ali.

A a tribo fez como ele pediu, arrastando o corpo do chefe da tribo por léguas até chegar em uma planície verde e quente, enterraram seu corpo cansado.

Passado alguns dias depois notaram que na cova do chefe da tribo nascia uma planta vigorosa e forte e se espalhava pelo campo em pouco tempo espigas douradas cobriam toda a terra.

Quando as espigas ficaram amarelas e brilharam como sol os índios colheram e se alimentaram e denominaram de milho, assim a riqueza voltou para aquele povo que nunca mais se desanimou.
E assim surgiu o milho.
Isso é o que Joseph Campbell chamava de função mística do mito : não a mera reconciliação entre a consciência e as precondições da sua própria existência, mas a reconciliação com a gratidão, o amor, o reconhecimento da delicadeza. Pela amargura e pela dor, a experiência primordial no âmago da vida é doce, maravilhosa.

A vida vive da vida. Sua primeira lei é: eu vou comer você, depois você vai me comer – algo difícil para a consciência assimilar. Esse negócio de a vida viver da vida (da morte) vinha acontecendo há bilhões de anos, até que os olhos se abriram e perceberam o que já estava acontecendo muito antes do surgimento do Homo sapiens no universo. Os órgãos vitais evoluíram a ponto de depender da morte de outros para existir. Esses órgãos têm impulsos que a consciência nem percebe; quando os percebe, talvez você se assuste com o horror de ser esse comer-ou-ser-comido.

O impacto de tal horror numa consciência sensível é imenso – a monstruosidade que é a vida. A vida é uma presença horrenda, e você não estaria aqui se não fosse ela. A primeira função de uma ordem mitológica tem sido reconciliar a consciência com esse fato. As primeiras ordens mitológicas, primitivas, são afirmativas, acolhem a vida como ela é. A vida exige sacrifício, nosso e de quem nos rodeia, por isso temos de estar preparados para viver de acordo com o acordo tácito de que, para que a comunidade sobreviva (a família, os amigos, o trabalho, a cidade) é necessária uma grande dose de sacrifício pessoal. Abrindo mão de uma parte de nossos desejos podemos fazer com que o desejo de todos possa ser satisfeito. Só podemos sentir a presença do outro se abrimos espaço para que o outro aí possa habitar.


Quer concebamos a mitologia em termos da afirmação do mundo como ele é, da negação do mundo como ele é ou da restauração do mundo ao que "deve" ser, a primeira função da mitologia é despertar na mente um sentimento de assombro perante essa situação mediante uma entre três formas de participar dela: exteriorizando, interiorizando ou efetuando uma correção.

Em busca do Mito Pessoal 3





Vivemos em um contexto em que as empresas cada vez mais necessitam compreender melhor seus públicos, de maneira que uma abordagem aprofundada sobre seus variados públicos se torna imperativa. Estamos mergulhados no Marketing 3.0, momento em que o produto não é mais o centro das atenções, mas sim todo um universo simbólico de marca, que depende quase que exclusivamente de sua relação com o consumidor. Este, por sua vez, não são simplesmente considerados consumidores, mas passam a ser tratados efetivamente como “seres humanos plenos: com mente, coração e espírito”.

Mais do que a busca por público consumidor, as marcas têm o interesse em construir relacionamento: com indivíduos cada vez mais participantes e engajados, as marcas precisam desenvolver uma conexão mais efetiva, uma verdadeira compreensão das necessidades e desejos destes públicos, bem como suas crenças e valores, balizados por narrativas simbólicas, os mitos. É importante perceber que, em um contexto de alta concorrência, a diferenciação de marca é essencial. E esta diferenciação passa por um posicionamento forte, ou seja, a marca precisa marcar um espaço na mente do consumidor, ou pelo pioneirismo - por ser a primeira a realizar determinado feito - ou por repetição - ao manter uma mensagem coesa de forma a conquistar os seus consumidores.

Quando nos inserimos no mercado de trabalho, cada vez mais somos avaliados por aquilo que representamos, pela nossa "marca pessoal", pelo mito que representamos perante às empresas nas quais queremos trabalhar ou participar. Toda empresa tem seu "mito pessoal", representados pelos objetivos e valores que ela define. O profissional melhor qualificado para trabalhar numa determinada empresa deve refletir esses objetivos e valores, Portanto , o mito pessoal de cada um de nós deve estar relacionado com o mito que representa a empresa. Quando isso não ocorre o que sentimos é que não fazemos parte desse pequeno universo. Nossas ideias e valores não combinam. E, cedo ou tarde, nós ou a empresa iremos sentir que uma ruptura é inevitável.

Para quem empreende a lógica é a mesma. é necessária a existência de uma irmandade simbólica entre a empresa anunciante e seus públicos. Uma continuidade semântica que permite a sintonia, a facilitação da comunicação, o estreitamento de laços entre a empresa e seu público. Se os mitos não convergem, a empresa não vende.

Mas como sair desse conflito interior, inconsciente, e descobrir por que estamos sofrendo esse estado de inadequação entre o que fazemos e o que queremos fazer ? Isso é uma busca pessoal. O que podemos propor enquanto profissionais e analistas é oferecer ferramentas para que você perceba esse conflito interior e crie um consenso factível entre a realidade e o desejo.

Se seu mito pessoal é ser um super herói, um curador ou um mistagogo, a jornada deve estar clara para que a empreende.Uma imagem mítica pode fazer com que um Luke Skywalker assuma sua condição de líder e empreenda uma verdadeira revolução em sua vida e naqueles que o cercam, trazendo felicidade pessoal e sentido a sua vida.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Em busca do Mito Pessoal 2

Quem é Você? O que significa ser um ser humano? De onde você veio? Agora que você chegou até aqui, qual é o propósito e o significado de sua vida? Quando tudo acabar, o que acontecerá com você, onde você irá?

A maneira como respondemos a essas perguntas decide o significado que damos às nossas vidas. Cada um de nós tem uma história a contar. Cada um de nós vive uma história - a história que acreditamos sobre nós mesmos e sobre o mundo. A maneira como respondemos a essas perguntas molda o significado que damos às nossas vidas.

O mito pessoal é a soma das percepções que o indivíduo tem de sua própria vida e do caminho que ela tem trilhado, independentemente da consciência pessoal. Nem sempre corresponde àquilo que o indivíduo deseja ou desejou para a própria vida, mas sim no que ela se constituiu até aquele momento. Sua percepção se dá a partir de um olhar sobre o somatório das experiências vividas. Tal percepção não se dá numa única dimensão da existência corporal, mas em todos os aspectos e áreas de que ela se compõe.

Perceber seu mito pessoal é como enxergar a própria vida como um espectro, com todas as experiências nela vividas. É simultaneamente perceber o mosaico das fases ou etapas que a constituem e como foram vividas, ou não, as experiências pertinentes a cada uma delas. É mais do que uma rememoração de fatos ocorridos, mas também das emoções vividas, do que foi aprendido e do que se deixou de aprender.

O mito pessoal, quando percebido, torna-se um acontecimento que dará a sensação de ter encontrado um porto seguro na vida da pessoa. A compreensão do significado da própria existência amplia as perspectivas de vida, facilitando a aceitação das experiências inevitáveis, que geralmente são vistas como um desafio ou imposição do destino.

sábado, 30 de setembro de 2017

Em busca do Mito Pessoal


Quando nos deparamos com um mito, uma lenda, ela nos toca porque fala de algo que existe em nosso interior, em nossa psique. O mito fala sobre nós, não é algo criado no passado e sem sentido. É só vermos o que Freud tem a dizer sobre Édipo e Narciso. Quando nos interessamos por um mito, é porque ele ressoa em nosso interior. As religiões tem força justamente por estarem baseadas em mitos que transcendem tempo e espaço e dão respostas as nossas ansiedades e medos.

Porém, em nossa sociedade, existe um erro de compreensão das tradições míticas. O crente acredita que os símbolos da mitologia se referem a eventos históricos concretos (dogmas). Como não acreditamos piamente nisso, pois a ciência desmente a realidade concreta do símbolo como dogma (travessia do mar morto, dilúvio, nascimento virginal, etc...), ocorre uma dissociação simbólica onde perdemos a noção do símbolo, e como este se refere a algo dentro de nós enquanto representante de nossa psicologia, perdemos a oportunidade de, através do símbolo, penetrar em nosso inconsciente, nossa alma. Da mesma forma o não crente, por não acreditar na religião, e, portanto, em seus símbolos, perde, assim como o crente, a oportunidade de aproveitar o valor de metáfora da mitologia.
Esse é o grande mal de nossa civilização e nos deixa mais desamparados. 

A mitologia oferece modelos para nos ajudar a compreender qual o sentido de estar vivo. O antropólogo Adolf Bastian propôs que os mitos ao redor do mundo são baseados nas mesmas “ideias elementares” , que Gustav Jung, por sua vez, chamou de arquétipos, que estão na base do inconsciente   e coletivo  - pensamento local, folclórico, popular (localização cultural do mito) e um pensamento elementar (transcende o espaço e o tempo - arquétipo). Quando analisamos o mito devemos buscar seu significado elementar, arquetípico para poder compreender seu aspecto transcendente. Desse modo a mitologia apresenta o campo de possibilidades nas quais podemos viver a nossa vida.


Porém, como recuperar o sentido perdido do Símbolo e utiliza-lo para nosso crescimento pessoal ? Esse é um tema para um próximo post.

sábado, 23 de setembro de 2017

Sobre a Anorexia


.....A palavra Anorexia é composta pela partícula “a” que significa privação, mais “orexia”, que se origina do grego “orektos” e significa apetite e desejo. Colocando a anorexia não somente como uma patologia da ordem da privação do apetite, mas também da privação de desejo.

.....O que o sintoma anoréxico sustenta é uma impossibilidade de satisfazer um desejo. Com esta visão, o jejum e a perda de peso são encarados como um modo do sujeito obter satisfação, negando a presença deste desejo. A inapetência pela comida se traduz também como uma inapetência de desejo. Desejo este que por algum motivo se mantém recalcado e permanece inconsciente.

.....A relação do desejo com o objeto é uma falta e não algo que lhe proporcionará uma satisfação. É isto que mantém o desejo e nos mantém como sujeitos desejantes, porque a estrutura do desejo implica nesta inacessibilidade do objeto, tornando-o indestrutível. Dessa forma, a insatisfação do desejo não é uma insuficiência, mas uma eficiência, já que é esta característica que o faz impossível de ser satisfeito e, portanto indestrutível.

.....O que caracteriza o desejo, segundo Freud é este impulso para reproduzir uma satisfação original, ou seja, produzir um retorno a algo que já não é mais, a algo perdido cuja presença é marcada pela falta.

.....A anoréxica nega o desejo, nega sua impossibilidade de satisfação e se satisfaz comendo nada. Negando o desejo, nega-se também a falta. E é aí que entra a figura materna

.....As mães das moças anoréxicas tem algo em comum: apresentam-se como mulheres fortes, fálicas, completas. A partir disso pode-se pensar a Anorexia como um sintoma endereçado a esta mãe fálica, com o objetivo de inscrever nela uma falta, um espaço. Como uma forma de reagir ao controle materno.

.....Segundo J. Lacan, é necessário que algo falte para que se instale o desejo e o sujeito advenha como sujeito desejante, sujeito da linguagem. As mães de anoréxicas não permitem a instalação desse vazio.

.....No caso das anoréxicas, a falta não se presentifica devido à presença avassaladora da mãe. Assim, o objetivo da anoréxica é criar uma separação, um brecha. O sintoma aparece para marcar o desejo do sujeito de inserir uma falta no outro e assim, nele próprio. Para evitar que a voracidade materna continue obturando seu desejo, a anoréxica passa a devorar o nada, passa a desejar o nada, diante da impossibilidade de desejar outra coisa.

.....Segundo A. Nogueira, em tese de mestrado, “o sujeito massacrado pelos cuidados do outro, recusa o objeto oral, o esvazia e diz a esse outro que busque um objeto de desejo além dele, fora dele, além do próprio sujeito porque assim, este encontrará a via rumo ao desejo”.

.....O sintoma, então, surge diante da onipotência da mãe. Na tentativa de preencher todos os buracos, ela obtura, com a satisfação de necessidades, o vazio que daria espaço para a filha se constituir sujeito. Dizendo não á demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção, diferente dela própria.

.....Para encerrar, fica uma frase de J. Lacan (Escritos, 1958):

“É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como desejo”.

sábado, 16 de setembro de 2017

Sobre a geração de crianças tristes, intolerantes e superficiais



Augusto Cury, psiquiatra e autor de livros publicados em mais de 70 países, lançou recentemente uma versão para crianças e adolescentes do seu best-seller Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século. O autor conversou com com o pessoal do site CONTI outra sobre os desafios de se criar os filhos hoje e e criticou a maneira como a família e a escola têm educado os pequenos. Segue abaixo a entrevista.

“Nunca tivemos uma geração tão triste”

Excesso de estímulos

“Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão perdendo as habilidades sócio-emocionais mais importantes: se colocar no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam gerenciar os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reação, no esquema ‘bateu, levou’, e a desenvolver altruísmo e generosidade.”

Geração triste

“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais.”

Dor compartilhada

“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve e aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam seu mundo com os dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos em sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores perdas e frustrações.”

Intimidade

“Pais que não cruzam seu mundo com o dos filhos e só atuam como manuais de regras estão aptos a lidar com máquinas. É preciso criar uma intimidade real com os pequenos, uma empatia verdadeira. A família não pode só criticar comportamentos, apontar falhas. A emoção deve ser transmitida na relação. Os pais devem ser os melhores brinquedos dos seus filhos. A nutrição emocional é importante mesmo que não se tenha tempo, o tempo precisa ser qualitativo. Quinze minutos na semana podem valer por um ano. Pais têm que ser mestres da vida dos filhos. As escolas também precisam mudar. São muito cartesianas, ensinam raciocínio e pensamento lógico, mas se esquecem das habilidades sócio-emocionais.”

Mais brincadeira, menos informação

“Criança tem que ter infância. Precisa brincar, e não ficar com uma agenda pré-estabelecida o tempo todo, com aulas variadas. É importante que criem brincadeiras, desenvolvendo a criatividade. Hoje, uma criança de sete anos tem mais informação do que um imperador romano. São informações desacompanhadas de conhecimento. Os pais podem e devem impor limites ao tempo que os filhos passam em frente às telas. Sugiro duas horas por dia. Se você não colocar limite, eles vão desenvolver uma emoção viciante, precisando de cada vez mais para sentir cada vez menos: vão deixar de refletir, se interiorizar, brincar e contemplar o belo.”

Parabéns!

“Em vez de apontar falhas, os pais devem promover os acertos. Todos os dias, filhos e alunos têm pequenos acertos e atitudes inteligentes. Pais que só criticam e educadores que só constrangem provocam timidez, insegurança, dificuldade em empreender. Os educadores precisam ser carismáticos, promover os seus educandos. Assim, o filho e o aluno vão ter o prazer de receber o elogio. Isso não tem ocorrido. O ser humano tem apontado comportamentos errados e não promovido características saudáveis.”

Conselho final para os pais

“Vejo pais que reclamam de tudo e de todos, não sabem ouvir não, não sabem trabalhar as perdas. São adultos, mas com idade emocional não desenvolvida. Para atuar como verdadeiros mestres, pai e mãe precisam estar equilibrados emocionalmente. Devem desligar o celular no fim de semana e ser pais. Muitos são viciados em smartphones, não conseguem se desconectar. Como vão ensinar os seus filhos e fazer pausas e contemplar a vida? Se os adultos têm o que eu chamo de síndrome do pensamento acelerado, que é viver sem conseguir aquietar e mente, como vão ajudar seus filhos a diminuírem a ansiedade?”